
Capítulo V
Outubro de 1633
Anavilhanas estava sendo preparada para o ritual da fertilidade, pois chegara a época da celebração. Yana e Amanari iriam com outras guerreiras até a ilha de Tupé para colher o paricá, uma erva alucinógena usada durante o ritual para evitar o envolvimento emocional das guerreiras com seus pares.
As canoas oscilavam perigosamente sobre as turbulentas águas do rio Negro, agitado devido à tempestade ocorrida horas antes. As jovens precisariam ter muito cuidado durante a travessia, pois o rio parecia pronto a tragar quem ousasse enfrentá-lo. Chegando ao seu destino, elas aliviaram a tensão ao se embrenharem entre os arbustos para colher a erva. Aos poucos, o trabalho deu lugar à diversão, e correndo, subiram a colina que dividia a pequena ilha. De lá era possível vislumbrar o espetáculo que os botos cor-de-rosa proporcionavam a quem pudesse vê-los. Distraídas, caminharam de volta para a areia da praia, quando o encanto foi quebrado pela cena que se apresentou: espalhados pela areia branca, vários homens encontravam-se desacordados, apresentando ferimentos profundos. O cheiro de sangue fresco já atraía os répteis para o local.
Yana engoliu em seco, e se apressou para afastar um jacaré que se aproximava de uma das vítimas. Avançou em sua direção, e fixando o olhar nos olhos do animal, buscou dentro de si o instinto primitivo de seus ancestrais. Então, ordenou mentalmente que voltasse para a água. Hipnotizados pelo poder emanado daquele espírito, os répteis retornaram ao rio. Um ligeiro mal-estar se apossou da mulher, e recuperando-se do transe, ela falou com a voz embargada:
-A fúria dos deuses foi implacável com eles. Venham, precisamos ajudá-los. Amanari, temos que ver quem está mais ferido. Maíra, vá até a colina e traga cipó-d'alho e unha-de-gato. Examinem todos com cuidado, lavem os ferimentos e usem as ervas. Depois levaremos os homens para as canoas.
Elas se apressavam para cumprir as ordens. Ouvindo um lamento de dor, Amanari precipitou-se em direção ao som, gritando agitada:
-Yana, encontrei mais um com vida! Ajude-me a levantá-lo para que possa respirar melhor. Depressa!
Imediatamente Yana ajudou a irmã, e as duas encontraram dificuldades para recostá-lo no pequeno monte de areia. Quando finalmente conseguiu virá-lo, Yana o fitou, atordoada. Nunca havia visto um homem de traços tão perfeitos. Os cabelos longos e louros misturavam-se aos grãos de areia, e as roupas molhadas e esfarrapadas revelavam músculos de um corpo poderoso. Um corte profundo rasgava sua testa, e o estranho parecia sofrer, com a boca comprimida em um gesto de dor. Então, sem se dar conta, ela passou suas mãos pela fronte do homem, necessitando tocá-lo de alguma forma. Confusa, ela não compreendeu o sentimento que invadiu seu peito, e por um breve momento desejou tomar para si a dor que ele sentia.
-Maíra - ela gritou aflita -, traga a erva para estancar o sangramento. Este homem está muito mal.
O suave toque em sua testa aliviou a dor que ele sentia, como se fosse o toque de um anjo. Por um instante, Rodrigo abriu os olhos para ver quem o acariciava tão docemente.
-Quién eres tú?
A voz rouca acariciou seus ouvidos, e Yana fitou o desconhecido, mergulhando no verde de seus olhos, que possuía um tom tão vivo quanto o das folhas da floresta. Ele estendeu a mão para ela, querendo dizer algo, e ela afagou a mão do estranho entre as suas, sentindo um agradável calor tomar conta de seu ser. Tentou organizar os pensamentos, e alarmada, prendeu a respiração. O tempo parou. E ela só voltou à realidade quando ouviu ao longe a voz angustiada de sua irmã:
-Yana, o que houve, você está bem?
Respirando profundamente, ela soltou as mãos do ferido.
-Não se preocupe, foi um ligeiro mal-estar. Fiquei fraca devido à energia que doei para ele.
Rodrigo fez um enorme esforço e abriu os olhos novamente, sorrindo para sua salvadora. Foi o sorriso mais terno que ela já havia visto, e isso a comoveu. Prometeu a si mesma que ia salvá-lo, mesmo que o ato ligasse seu espírito ao dele para sempre... O tempo era a diferença entre a vida e a morte, precisava apressar-se.



