Promoção de Natal

28 de out de 2009

A Sangue e Fogo - Pablo Neruda


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

19 de out de 2009

Isadora


  A escuridão da noite caía sobre o vilarejo de Feliz Lusitânia. Rodrigo se sentiu incomodado ante a perspectiva do confronto com o majestoso rio-mar, e o seu sono foi agitado, recheado de sonhos indecifráveis.  Algo lhe dizia que não deveria ter ficado ali. Olhando em volta, admirou o conforto do quarto, com cortinas que combinavam com os lençóis da cama onde dormira. Na parede ao lado, uma bela pintura retratava o corpo nu de uma mulher.  Num canto, sobre a mesa, uma jarra de porcelana pintada e uma bacia para se lavar. Em frente à cama, uma cômoda com um espelho apoiado sobre ela, e na cadeira a sua frente, um amontoado de roupas jogadas no frenesi do desejo. Que noite! Então ele se virou, e percebeu a pequena figura feminina que dormia com um sorriso nos lábios. Seus longos cabelos dourados se encaracolavam e cobriam parte dos seios fartos, e sua pele acetinada era um eterno convite ao deleite. Ele cobriu o rosto com as mãos e balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando apagar da memória a fraqueza que tinha por aquela mulher, pois sempre que ia ali acabava em seus braços. Por fim, seus lábios se apertaram num sorriso debochado e silencioso, e ele levantou-se devagar para não acordá-la.

  -Psiiiiiiiiiiu!  Aonde o meu garanhão pensa que vai? - Isadora juntou suas mãos em torno do braço musculoso e o puxou de volta para a cama. - Está me deixando aqui sozinha? Eu quero você uma vez mais... 

  -Quer mesmo? Cuidado que você pode se arrepender... 

  -Que nada! Volte aqui que agora é por minha conta! 

   Com uma sonora gargalhada, Rodrigo jogou-se sobre ela, e Isadora passou as pernas ao seu redor, fazendo com que ele esquecesse as preocupações e afastasse do peito a opressão que sentia há um momento atrás.

   

   Algum tempo depois, exausta e sonolenta, ela saboreava a visão do corpo de Rodrigo, que parecia ter adormecido. Mas ele não adormecera. Na verdade, dedicava seus pensamentos a uma outra mulher.  Maria Antônia... Há  anos atrás se entregara de corpo e alma a ela, mas fora deixado de lado, trocado por um importante fidalgo português. 

  -Traidora! Vil sedutora... Como posso ainda estar ligado a ela...? - praguejou baixo, virando-se de lado.

12 de out de 2009

Blogagem Coletiva - Vida de Escritor - Clarice Lispector


Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia. Recém-nascida veio com os pais, em 1921, para Maceió. Em 1924, mudou-se com a família para Recife e, em 1935, estavam no Rio de Janeiro. Em 1943, tornou-se aluna da Faculdade de Direito. Nesse período escreveu seu primeiro romance, "Perto do Coração Selvagem". Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente. A seguir, morou em Nápoles, Berna, Torquay (Inglaterra) e Washington.

Em 1959, separou-se do marido e fixou residência no Rio de Janeiro. A partir daí, colaborou para a revista "Senhor", fez entrevistas para a revista "Manchete", colaborou em colunas para o "Jornal da Tarde", "Correio da Manhã" e, anos depois, para o "Jornal do Brasil", além de manter a coluna "Só para mulheres", no "Diário da Noite".

Em 1962, recebeu o prêmio "Carmem Dolores" pelo romance "A Maçã no Escuro". Em 1967, recebeu o prêmio "Calunga", da Companhia Nacional da Criança pela publicação de "O Mistério do Coelho Pensante". Em setembro, desse mesmo ano, provoca, acidentalmente, um incêndio em seu apartamento, queimando gravemente sua mão direita.

Em 1968, junto com outros intelectuais, participou de uma manifestação contra a ditadura militar. Em 1976, recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto de sua obra. Em 1977, publicou seu último livro, "A Hora da Estrela". Faleceu no dia 9 de dezembro desse mesmo ano, devido a um câncer no útero.

PRINCIPAIS OBRAS
Romances
Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977).

Contos
Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979).

Crônicas e entrevistas
De Corpo Inteiro (1975), entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984) crônicas.

Infantil
O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973); Quase de Verdade (1978)
Fonte: www.nilc.icmc.usp.br


Quando falava, pensavam que Clarice Lispector era estrangeira. E ela, que é uma aurora em nossa literatura, tinha muita dificuldade em pronunciar essa bela palavra. "A minha primeira língua foi o português. Se eu falo russo? Não, não absolutamente.( ...) eu tenho a língua presa. (...) algumas pessoas me perguntavam se eu era francesa, por causa desses meus erres." (Entrevista)

A brasileira Clarice, que só por acaso nasceu em uma cidadezinha da Ucrânia, dominava o inglês e o francês, mas só escreveu em português, a sua, a nossa língua materna e, que se saiba, nunca falou iídiche ou hebraico. Uma vez alfabetizada, tornou-se logo uma leitora voraz.
"Quando eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor! Aí disse: Eu também quero”. ( Entrevista)

Sua carreira começa "Perto do Coração Selvagem", título jamais desmentido ao longo dos outros romances, dos contos e das histórias infantis, ou de todas as crônicas. Com seus olhos felinos abertos de soslaio sobre o mundo, Clarice Lispector permaneceu sempre perto do coração da vida, selvagem como a natureza agreste de sua infância em Pernambuco, diferente, inaugural e transgressora, se autocriando e autodevorando como um sol que ilumina enquanto queima a si mesmo, e que aquece porque se consome.

"Nasci para escrever.(...) Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz."
"Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever..." ( Entrevista)

"... em torn
o dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai criar. Desolado, ele provocara a grande solidão. (...) E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra." ( A Maçã no Escuro)

Expressiva e significativa seria a própria escolha de seus títulos ao evocar etapas no caminho cabalístico que percorre, entre outras, as esferas do corpo e da sensação, do amor, da paixão, do prazer, da iniciação, da escuridão, da perplexidade ou da estranheza , do esplendor, etc. Bastaria lembrar alguns: A Via Crucis do Corpo; Perto do Coração Selvagem; A Paixão segundo G.H.; A Maçã no Escuro ; Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres; A Legião Estrangeira; e Visão do Esplendor.

"Sei o que estou fazendo aqui: conto os instantes que pingam e são grossos de sangue." (....)

"Se Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia. Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinqüenta. Se Heidegger pudesse ter deixado de ser alemão, se ele tivesse escrito o Romance da Terra. (...) É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde o fôlego ela continua , mais longe ainda, mais longe do que todo saber."
( Hélène Cixous in A HORA DE CLARICE LISPECTOR)

Além do pensar filosófico, que se expressa em feminina e socrática ironia, há uma ética na escrita de Clarice: uma caridade autêntica e um profundo respeito pelo semelhante, pela criança e pelo mendigo, pelos desencontrados laços de família, pelos amores infelizes, por nossa finitude.

"Você sabe que a esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem resposta?" ( A Maçã no Escuro)
"Ah! meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior."

E assim como o poeta que se expande e se dissolve no mundo e na natureza à maneira do Criador, Clarice, que não tem medo da incompletude, por isso mesmo cresce e se expande nos últimos parágrafos de A Paixão segundo G.H.:
"Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios."


"Era Clarice bulindo mais fundo onde a palavra parece encontrar sua razão de ser e retratar o homem."
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

"Clarice não delata, não conta, não narra e nem desenha – ela esburaca um túnel onde de repente repõe o objeto perseguido em sua essência inesperada. / Clarice devora-se a si mesma."
LÚCIO CARDOSO, escritor, cineasta, pintor e grande amigo.

"...(você pega mil ondas que eu não capto, eu me sinto como rádio de galena, só pegando a estação da esquina e você de radar, televisão, ondas curtas), é engraçado, como você me atinge e me enriquece ao mesmo tempo, o que faz um certo mal, me faz sentir menos sólido e seguro."
RUBEM BRAGA, escritor e amigo.
Fonte: Vidas Lusófonas

"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.” Clarice Lispector (Correio Feminino)




Clarice por Cris

Por que escolhi Clarice como meu porto seguro? Talvez, pela minha impulsividade em escrever o que vem à cabeça, sem me preocupar com o que revelei... ou, talvez, por deixar viver em mim um lado infantil fartamente feliz! Mas, bem lá no fundo, sei que a admiro por todo o transbordar de emoções que permeiam cada um de seus poemas e poesias...
E sempre guardo comigo, a sete chaves, as seguintes palavras de Clarice Lispector: "sou um mistério para mim mesma".
Cristina
A Dança
(Cristina Brandão)

"Danço a valsa das ilusões
Movimento meu corpo ao sabor da liquidez das ondas prazerosas
Deliro prontamente na doação de mim mesma
Sou tua por um tempo
Não mais me pertenço
No bater das asas de um anjo
Flutuo nos acordes imperceptíveis da melodia
Cativa em seus braços
Não retiro a máscara que escamoteia meus desejos
Vilão de outrora
Heroi de agora
Deixarei meus sonhos em suas mãos
Por uma noite
Apenas por uma noite."



Clarice por Márcia

A influência de Clarice em minha poesia é marcante... o inexorável caminho para a solidão e a carência traduzida em emoção, junto ao eterno encantamento de poder renascer através de cada palavra que escrevo... assim sou eu.
Márcia
"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de onde e como você me vê passar." (Clarice L.)

Meus Pedaços
(Márcia Figueiredo)

"Desmaio sobre palavras,
sobre pétalas,
sobre o que tenho em mim...
e se não suporto o virar das páginas
a virar a minha vida,
a tornar passado o que foi futuro
é porque derrubo pelo caminho
minha essência pura,
nua, bêbada e lânguida...
cultivada em prazer e dor
em ardência e gelo
em princípio e fim."

5 de out de 2009

A Escuridão


Nuvens escuras se fechavam sob o céu do Arquipélago de Anavilhanas. O vento do norte não era bem-vindo para as mulheres da aldeia. Saindo do interior do Templo, a velha guardiã Caiari caminhou em direção ao jardim lateral, de onde podia sentir a energia trazida pela força do ar revolto. Olhando ao redor, observou as folhas serem arrancadas do corpo das árvores, e se juntarem a tudo o que pudesse ser tragado pelo redemoinho gélido que se formara a sua frente. Um mau presságio a fez estremecer: por um momento teve a visão da escuridão se apoderando do seu povo. Adiantou-se, e, erguendo os braços e os olhos para o céu, deixou-se envolver pela corrente em espiral que comandava o cenário aterrorizador, desafiando com uma prece o poder maligno que dilacerava o seu espírito:

Vento do norte que vibra com esperanças perdidas
E com lágrimas derramadas por dores sofridas
Vento que chama os espíritos de luz para a escuridão
E traz mais sofrimento aos espíritos fracos
Encontre o caminho de volta ao seio da Mãe Terra
E liberte do teu poder as vidas que não te pertencem!


Seu corpo absorveu o redemoinho, dissipando-o, e ela caiu sobre a terra, pálida e sem forças.

A Sacerdotisa Yana e o Capitão Rodrigo

Capa do livro "Herança da Paixão", de Shannon Drake
Minha'lma de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida

Não vejo nada assim, enlouquecida
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa
Quando te digo isso, toda a graça
De tua boca bonita fala em mim, de olhos postos em ti, digo de rastro

Podem voar mundos, mover astros
Que tu és como um deus, princípio e fim."

Florbela Espanca