Abrimos nossa caixa de Pandora...

Essa caixa não foi um presente de Zeus, mas construída cuidadosamente por nós. Durante anos de dedicação e anulação perante a vida, fomos pouco a pouco enchendo nossa caixa de lembranças, insucessos, alegrias, esperança, decepções, amores, vitórias, fracassos, vergonha, desistências, desejos, teimosia, saudade... Mantivemos tudo muito bem guardado, mas a rotina de guardar sentimentos se rompeu quando o inesperado não quis participar daquele jogo. E de repente, estávamos em meio a uma explosão de cores, sons, percepções. Foi o despertar. Como se nosso sangue estivesse mais vivo, como se nossos olhos enxergassem mais e os ouvidos escutassem todos os sons do mundo.
Estamos diferentes. E ver a vida com esse brilho nos tornou especiais, talvez um pouco invulneráveis, como se nada mais nos surpreendesse. Não há medo ou apreensão, só a certeza de que estamos aqui, e de que agora é pra valer!



"Abençoa a taça que quer transbordar para que dela emanem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria."


Assim falava Zaratustra...


Yana em León, séc. XVII

Amazônia

Loading...

12/10/2009

Blogagem Coletiva - Vida de Escritor - Clarice Lispector


Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia. Recém-nascida veio com os pais, em 1921, para Maceió. Em 1924, mudou-se com a família para Recife e, em 1935, estavam no Rio de Janeiro. Em 1943, tornou-se aluna da Faculdade de Direito. Nesse período escreveu seu primeiro romance, "Perto do Coração Selvagem". Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente. A seguir, morou em Nápoles, Berna, Torquay (Inglaterra) e Washington.

Em 1959, separou-se do marido e fixou residência no Rio de Janeiro. A partir daí, colaborou para a revista "Senhor", fez entrevistas para a revista "Manchete", colaborou em colunas para o "Jornal da Tarde", "Correio da Manhã" e, anos depois, para o "Jornal do Brasil", além de manter a coluna "Só para mulheres", no "Diário da Noite".

Em 1962, recebeu o prêmio "Carmem Dolores" pelo romance "A Maçã no Escuro". Em 1967, recebeu o prêmio "Calunga", da Companhia Nacional da Criança pela publicação de "O Mistério do Coelho Pensante". Em setembro, desse mesmo ano, provoca, acidentalmente, um incêndio em seu apartamento, queimando gravemente sua mão direita.

Em 1968, junto com outros intelectuais, participou de uma manifestação contra a ditadura militar. Em 1976, recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto de sua obra. Em 1977, publicou seu último livro, "A Hora da Estrela". Faleceu no dia 9 de dezembro desse mesmo ano, devido a um câncer no útero.

PRINCIPAIS OBRAS
Romances
Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977).

Contos
Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979).

Crônicas e entrevistas
De Corpo Inteiro (1975), entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984) crônicas.

Infantil
O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973); Quase de Verdade (1978)
Fonte: www.nilc.icmc.usp.br


Quando falava, pensavam que Clarice Lispector era estrangeira. E ela, que é uma aurora em nossa literatura, tinha muita dificuldade em pronunciar essa bela palavra. "A minha primeira língua foi o português. Se eu falo russo? Não, não absolutamente.( ...) eu tenho a língua presa. (...) algumas pessoas me perguntavam se eu era francesa, por causa desses meus erres." (Entrevista)

A brasileira Clarice, que só por acaso nasceu em uma cidadezinha da Ucrânia, dominava o inglês e o francês, mas só escreveu em português, a sua, a nossa língua materna e, que se saiba, nunca falou iídiche ou hebraico. Uma vez alfabetizada, tornou-se logo uma leitora voraz.
"Quando eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor! Aí disse: Eu também quero”. ( Entrevista)

Sua carreira começa "Perto do Coração Selvagem", título jamais desmentido ao longo dos outros romances, dos contos e das histórias infantis, ou de todas as crônicas. Com seus olhos felinos abertos de soslaio sobre o mundo, Clarice Lispector permaneceu sempre perto do coração da vida, selvagem como a natureza agreste de sua infância em Pernambuco, diferente, inaugural e transgressora, se autocriando e autodevorando como um sol que ilumina enquanto queima a si mesmo, e que aquece porque se consome.

"Nasci para escrever.(...) Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz."
"Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever..." ( Entrevista)

"... em torn
o dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai criar. Desolado, ele provocara a grande solidão. (...) E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra." ( A Maçã no Escuro)

Expressiva e significativa seria a própria escolha de seus títulos ao evocar etapas no caminho cabalístico que percorre, entre outras, as esferas do corpo e da sensação, do amor, da paixão, do prazer, da iniciação, da escuridão, da perplexidade ou da estranheza , do esplendor, etc. Bastaria lembrar alguns: A Via Crucis do Corpo; Perto do Coração Selvagem; A Paixão segundo G.H.; A Maçã no Escuro ; Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres; A Legião Estrangeira; e Visão do Esplendor.

"Sei o que estou fazendo aqui: conto os instantes que pingam e são grossos de sangue." (....)

"Se Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia. Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinqüenta. Se Heidegger pudesse ter deixado de ser alemão, se ele tivesse escrito o Romance da Terra. (...) É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde o fôlego ela continua , mais longe ainda, mais longe do que todo saber."
( Hélène Cixous in A HORA DE CLARICE LISPECTOR)

Além do pensar filosófico, que se expressa em feminina e socrática ironia, há uma ética na escrita de Clarice: uma caridade autêntica e um profundo respeito pelo semelhante, pela criança e pelo mendigo, pelos desencontrados laços de família, pelos amores infelizes, por nossa finitude.

"Você sabe que a esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem resposta?" ( A Maçã no Escuro)
"Ah! meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior."

E assim como o poeta que se expande e se dissolve no mundo e na natureza à maneira do Criador, Clarice, que não tem medo da incompletude, por isso mesmo cresce e se expande nos últimos parágrafos de A Paixão segundo G.H.:
"Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios."


"Era Clarice bulindo mais fundo onde a palavra parece encontrar sua razão de ser e retratar o homem."
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

"Clarice não delata, não conta, não narra e nem desenha – ela esburaca um túnel onde de repente repõe o objeto perseguido em sua essência inesperada. / Clarice devora-se a si mesma."
LÚCIO CARDOSO, escritor, cineasta, pintor e grande amigo.

"...(você pega mil ondas que eu não capto, eu me sinto como rádio de galena, só pegando a estação da esquina e você de radar, televisão, ondas curtas), é engraçado, como você me atinge e me enriquece ao mesmo tempo, o que faz um certo mal, me faz sentir menos sólido e seguro."
RUBEM BRAGA, escritor e amigo.
Fonte: Vidas Lusófonas

"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.” Clarice Lispector (Correio Feminino)




Clarice por Cris

Por que escolhi Clarice como meu porto seguro? Talvez, pela minha impulsividade em escrever o que vem à cabeça, sem me preocupar com o que revelei... ou, talvez, por deixar viver em mim um lado infantil fartamente feliz! Mas, bem lá no fundo, sei que a admiro por todo o transbordar de emoções que permeiam cada um de seus poemas e poesias...
E sempre guardo comigo, a sete chaves, as seguintes palavras de Clarice Lispector: "sou um mistério para mim mesma".
Cristina
A Dança
(Cristina Brandão)

"Danço a valsa das ilusões
Movimento meu corpo ao sabor da liquidez das ondas prazerosas
Deliro prontamente na doação de mim mesma
Sou tua por um tempo
Não mais me pertenço
No bater das asas de um anjo
Flutuo nos acordes imperceptíveis da melodia
Cativa em seus braços
Não retiro a máscara que escamoteia meus desejos
Vilão de outrora
Heroi de agora
Deixarei meus sonhos em suas mãos
Por uma noite
Apenas por uma noite."



Clarice por Márcia

A influência de Clarice em minha poesia é marcante... o inexorável caminho para a solidão e a carência traduzida em emoção, junto ao eterno encantamento de poder renascer através de cada palavra que escrevo... assim sou eu.
Márcia
"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de onde e como você me vê passar." (Clarice L.)

Meus Pedaços
(Márcia Figueiredo)

"Desmaio sobre palavras,
sobre pétalas,
sobre o que tenho em mim...
e se não suporto o virar das páginas
a virar a minha vida,
a tornar passado o que foi futuro
é porque derrubo pelo caminho
minha essência pura,
nua, bêbada e lânguida...
cultivada em prazer e dor
em ardência e gelo
em princípio e fim."

39 Comentários:

Brisa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Brisa disse...

Não contendo tamanha felicidade,tive que fazer o primeiro comentário: soberba a postagem em alusão à nossa querida e inspiradora Clarice Lispector!
Somos felizes em trilhar o caminho da escrita e das INDECIFRÁVEIS emoções...
Bjs da Cris

jamesp. disse...

Só tenho um comentário perfeito seu post.Um texto primoroso sobre Clarice.Parabéns.Um abraço.

Cristina e Márcia disse...

Valeu, Jamesp
Fizemos com muita inspiração e carinho!!!
Bjs, Marcia

Vanessa disse...

Ah, depois que o James sentenciou que não falaria de Clarice , fiquei pensando, será que alguém vai deixar ela de fora. Que bom que achei Clarice aqui, muito bem lembrada por um texto belissimo. obrigada pela participação!!

Abraço

Tempestade disse...

Simplesmente maravilhoso!
Eu adoro a Clarice, e esse trecho que você escolheu, faz parte do meu avatar!
Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de onde e como você me vê passar." (Clarice Lispector).

Beijos Tempestuosos!

Janaina Amado disse...

Meninas, aproveitei a blogagem coletiva, de que também participo, para conhecer o blog de vocês. Gostei do texto sobre Clarice, uma de minhas paixões. E acho original o blog a duas. Sucesso e abraços!

Luciano A.Santos disse...

Cristina e Márcia,

Gosto muito da obra de Clarice - estou em ânsia para ler A Paixão Segundo GH - e fiquei feliz de ver a forma como falaram sobre ela.

Parabéns pelo post, abraços.

Mari Amorim disse...

Olá,Cristina e Marcia,
que delicia de texto,adorei,sua participação.Obrigada pela visita.
Boa semana!
Boas energias
Mari

Sandra disse...

Ola!
Vim lhe dizer que a postagem já está lá.
Gostei do seu texto estou participando da blogagem coletiva com o meu blog: Uma Interação de amigos, agradece a sua visita.
http://sandrarandrade7.blogspot.com

Este é um momento em que se aprende muito, um com o outro.
Com carinho
Sandra

Menina, quanta coisa vc. fez. Nossa!!!

Cristina e Márcia disse...

Jamesp,obrigada pela sua visita e coment! O post foi elaborado com muito carinho para uma troca de conhecimento valioso.
Bjs da Cris

Cristina e Márcia disse...

Vanessa,nossa diretriz inspiradora na escrita, chama-se Clarice Lispector...
Bjs da Cris

Cristina e Márcia disse...

Tempestade,lindo o seu avatar!
Seja sempre benvinda,viu?
Bjs da Cris

Cristina e Márcia disse...

Janaína,obrigada por suas palavras carinhosas! Irei correeendo ver a sua postagem...
Bjs da Cris

Cristina e Márcia disse...

Luciano,sem sombra de dúvida, o que fizemos ainda é pouco para homenagearmos essa escritora atemporal!
Bjs,querido
Cris

Cristina e Márcia disse...

Mari,falar de Clarice nos traz leveza à alma...
Bjs,lindinha1
Cris

Cristina e Márcia disse...

Sandra,realmente,levantamos um pouquinho de tudo sobre nossa querida autora...rsrsrs
Vc é uma simpatia,viu?
Bjs da Cris

Luma Rosa disse...

"Atenção, esta vida contém cenas explícitas de tédio nos intervalos da emoção. Quem não gostar que conte outra ou vire artista e faça sua própria versão, aqui não tem segunda sessão."(Clarice Lispector)

Clarice é atemporal, para qualquer hora e lugar!! Beijus

A Itinerante - Neiva disse...

Cristina e Marcia,

Conheço, lógico, Clarice e admiro muito. Não conhecia era estas duas poetisas maravilhosas que trouxeram aqui. rsrs

Adorei ler suas poesias, cada uma em seu estilo, mas belíssimas e cheia de sentidos ambas.

O post está um primor. Bem feito, informativo, bonito, leve. Parabéns.

Beijos

Vick disse...

Tb adoro Clarice. Este post é maravilhoso e ficou mais charmoso ainda com o texto de vcs... bjss

Cristina e Márcia disse...

Oi Luma, Clarice dispensa segunda sessão, não é mesmo?
Beijos, Marcia

Cristina e Márcia disse...

Oi Neiva
Vc é um amor de amiga!!!! Obrigada por notar e elogiar!!!
Beijos, Marcia

Cristina e Márcia disse...

Vick, vc é uma graça, garota!!! Obrigada pelo elogio, a gt fica muito feliz!!!!
Beijos, Marcia

Cristina e Márcia disse...

Vanessa, adoramos participar e lembrar Clarice Lispector!!!
Bjs, Marcia

Cristina e Márcia disse...

Tempestade, essas palavras são meu perfil do orkut, eu amo!!!
Bjs, marcia

Cristina e Márcia disse...

Obrigada, Janaína!
Bjs, Marcia

Pelos caminhos da vida. disse...

Show de post meninas.

beijooo.

A Itinerante - Neiva disse...

Meninas,

Repito aqui o convite:

Vamos celebrar as coisas boas da vida? Vejam lá em meu blog do que se trata e fiquem a vontade para aceitar ou não. :D

Beijos

Márcia Figueiredo disse...

Oi Ana
Obrigada pelo carinho!
Beijos

Márcia Figueiredo disse...

Neivinha, fazemos muito com as palavras, né? estou indo lá...
srsrsssss
besitos

Rika disse...

Ahhh... Clarice Lispector! É emoção pura!!!! Desde que li a primeira frase escrita por ela me apaixonei!! Pq modéstia a parte rsrs... me identifico muito com seus poemas e poesias!!!
E vou confessar uma coisa, a primeira vez que li uma poesia escrita por vcs, eu comparei com os escritos da Clarice. Pela profundidade de emoções que vcs colocam em cada frase!!

Beijos
Rika

Cristina e Márcia disse...

Oi Rika
Você é uma joia de amiga!!!! Beijos mil!!!!!
Marcia

A Clarice lispector é sempre atual!!!!

Brisa disse...

Rika,vc é uma fofa,viu? Adorei saber da sua admiração por essa escritora divina!
Obrigada pelas palvras carinhosas!
Bjs tatuados,
Cris

Brisa disse...

Luma,simplesmente,liiindo o que postastes!Clarice,sempre, nos surpreendendo!
Bjs da Cris

Brisa disse...

Neivinha,vindo de vc tais palavras, só temos que agradecer seu imenso carinho...
Bjs de magia,
Cris

Brisa disse...

Vick,adoramos vc!
Sempre nos dando a maior força,né?
Bjs,lindinha
Cris

Brisa disse...

Ana é ótimo contarmos com vc por aqui!
Bjs da Cris

Débora Camargos disse...

Olá! Agradeço a visita de vocês. Vim aqui conhecer o post de Clarice e acabei gostando de todos os outros. Amei tudinho aqui!
Clarice é amiga particular, né! Aquela que fala as coisas certas nas horas incertas. Clarice- ou vc gosta ou não gosta. Não tem meio termo. Vcs conseguiram através das palavras demonstrar o apreço que tem por essa grande mulher.
Um grande abraço!

Cristina e Márcia disse...

Obrigada, Débora!!!!!
Beijo pra vc!!!!!

 
Tema para Blogger Mínima 223
Original de Douglas Bowman | Modificado por BloggerSPhera