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6 de out. de 2011

Para lá que eu vou... Clarice Lispector


"Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.

Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.

Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira do eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.

Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.

É para o meu pobre nome que vou.

E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.

À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? o que importa? os ventos as trazem de novo e eu as possuo.

Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.

Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.

Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós."

12 de out. de 2009

Blogagem Coletiva - Vida de Escritor - Clarice Lispector


Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia. Recém-nascida veio com os pais, em 1921, para Maceió. Em 1924, mudou-se com a família para Recife e, em 1935, estavam no Rio de Janeiro. Em 1943, tornou-se aluna da Faculdade de Direito. Nesse período escreveu seu primeiro romance, "Perto do Coração Selvagem". Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente. A seguir, morou em Nápoles, Berna, Torquay (Inglaterra) e Washington.

Em 1959, separou-se do marido e fixou residência no Rio de Janeiro. A partir daí, colaborou para a revista "Senhor", fez entrevistas para a revista "Manchete", colaborou em colunas para o "Jornal da Tarde", "Correio da Manhã" e, anos depois, para o "Jornal do Brasil", além de manter a coluna "Só para mulheres", no "Diário da Noite".

Em 1962, recebeu o prêmio "Carmem Dolores" pelo romance "A Maçã no Escuro". Em 1967, recebeu o prêmio "Calunga", da Companhia Nacional da Criança pela publicação de "O Mistério do Coelho Pensante". Em setembro, desse mesmo ano, provoca, acidentalmente, um incêndio em seu apartamento, queimando gravemente sua mão direita.

Em 1968, junto com outros intelectuais, participou de uma manifestação contra a ditadura militar. Em 1976, recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto de sua obra. Em 1977, publicou seu último livro, "A Hora da Estrela". Faleceu no dia 9 de dezembro desse mesmo ano, devido a um câncer no útero.

PRINCIPAIS OBRAS
Romances
Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977).

Contos
Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979).

Crônicas e entrevistas
De Corpo Inteiro (1975), entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984) crônicas.

Infantil
O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973); Quase de Verdade (1978)
Fonte: www.nilc.icmc.usp.br


Quando falava, pensavam que Clarice Lispector era estrangeira. E ela, que é uma aurora em nossa literatura, tinha muita dificuldade em pronunciar essa bela palavra. "A minha primeira língua foi o português. Se eu falo russo? Não, não absolutamente.( ...) eu tenho a língua presa. (...) algumas pessoas me perguntavam se eu era francesa, por causa desses meus erres." (Entrevista)

A brasileira Clarice, que só por acaso nasceu em uma cidadezinha da Ucrânia, dominava o inglês e o francês, mas só escreveu em português, a sua, a nossa língua materna e, que se saiba, nunca falou iídiche ou hebraico. Uma vez alfabetizada, tornou-se logo uma leitora voraz.
"Quando eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor! Aí disse: Eu também quero”. ( Entrevista)

Sua carreira começa "Perto do Coração Selvagem", título jamais desmentido ao longo dos outros romances, dos contos e das histórias infantis, ou de todas as crônicas. Com seus olhos felinos abertos de soslaio sobre o mundo, Clarice Lispector permaneceu sempre perto do coração da vida, selvagem como a natureza agreste de sua infância em Pernambuco, diferente, inaugural e transgressora, se autocriando e autodevorando como um sol que ilumina enquanto queima a si mesmo, e que aquece porque se consome.

"Nasci para escrever.(...) Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz."
"Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever..." ( Entrevista)

"... em torn
o dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai criar. Desolado, ele provocara a grande solidão. (...) E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra." ( A Maçã no Escuro)

Expressiva e significativa seria a própria escolha de seus títulos ao evocar etapas no caminho cabalístico que percorre, entre outras, as esferas do corpo e da sensação, do amor, da paixão, do prazer, da iniciação, da escuridão, da perplexidade ou da estranheza , do esplendor, etc. Bastaria lembrar alguns: A Via Crucis do Corpo; Perto do Coração Selvagem; A Paixão segundo G.H.; A Maçã no Escuro ; Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres; A Legião Estrangeira; e Visão do Esplendor.

"Sei o que estou fazendo aqui: conto os instantes que pingam e são grossos de sangue." (....)

"Se Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia. Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinqüenta. Se Heidegger pudesse ter deixado de ser alemão, se ele tivesse escrito o Romance da Terra. (...) É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde o fôlego ela continua , mais longe ainda, mais longe do que todo saber."
( Hélène Cixous in A HORA DE CLARICE LISPECTOR)

Além do pensar filosófico, que se expressa em feminina e socrática ironia, há uma ética na escrita de Clarice: uma caridade autêntica e um profundo respeito pelo semelhante, pela criança e pelo mendigo, pelos desencontrados laços de família, pelos amores infelizes, por nossa finitude.

"Você sabe que a esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem resposta?" ( A Maçã no Escuro)
"Ah! meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior."

E assim como o poeta que se expande e se dissolve no mundo e na natureza à maneira do Criador, Clarice, que não tem medo da incompletude, por isso mesmo cresce e se expande nos últimos parágrafos de A Paixão segundo G.H.:
"Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mais perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios."


"Era Clarice bulindo mais fundo onde a palavra parece encontrar sua razão de ser e retratar o homem."
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

"Clarice não delata, não conta, não narra e nem desenha – ela esburaca um túnel onde de repente repõe o objeto perseguido em sua essência inesperada. / Clarice devora-se a si mesma."
LÚCIO CARDOSO, escritor, cineasta, pintor e grande amigo.

"...(você pega mil ondas que eu não capto, eu me sinto como rádio de galena, só pegando a estação da esquina e você de radar, televisão, ondas curtas), é engraçado, como você me atinge e me enriquece ao mesmo tempo, o que faz um certo mal, me faz sentir menos sólido e seguro."
RUBEM BRAGA, escritor e amigo.
Fonte: Vidas Lusófonas

"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.” Clarice Lispector (Correio Feminino)




Clarice por Cris

Por que escolhi Clarice como meu porto seguro? Talvez, pela minha impulsividade em escrever o que vem à cabeça, sem me preocupar com o que revelei... ou, talvez, por deixar viver em mim um lado infantil fartamente feliz! Mas, bem lá no fundo, sei que a admiro por todo o transbordar de emoções que permeiam cada um de seus poemas e poesias...
E sempre guardo comigo, a sete chaves, as seguintes palavras de Clarice Lispector: "sou um mistério para mim mesma".
Cristina
A Dança
(Cristina Brandão)

"Danço a valsa das ilusões
Movimento meu corpo ao sabor da liquidez das ondas prazerosas
Deliro prontamente na doação de mim mesma
Sou tua por um tempo
Não mais me pertenço
No bater das asas de um anjo
Flutuo nos acordes imperceptíveis da melodia
Cativa em seus braços
Não retiro a máscara que escamoteia meus desejos
Vilão de outrora
Heroi de agora
Deixarei meus sonhos em suas mãos
Por uma noite
Apenas por uma noite."



Clarice por Márcia

A influência de Clarice em minha poesia é marcante... o inexorável caminho para a solidão e a carência traduzida em emoção, junto ao eterno encantamento de poder renascer através de cada palavra que escrevo... assim sou eu.
Márcia
"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de onde e como você me vê passar." (Clarice L.)

Meus Pedaços
(Márcia Figueiredo)

"Desmaio sobre palavras,
sobre pétalas,
sobre o que tenho em mim...
e se não suporto o virar das páginas
a virar a minha vida,
a tornar passado o que foi futuro
é porque derrubo pelo caminho
minha essência pura,
nua, bêbada e lânguida...
cultivada em prazer e dor
em ardência e gelo
em princípio e fim."

A Sacerdotisa Yana e o Capitão Rodrigo

Capa do livro "Herança da Paixão", de Shannon Drake
Minha'lma de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida

Não vejo nada assim, enlouquecida
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa
Quando te digo isso, toda a graça
De tua boca bonita fala em mim, de olhos postos em ti, digo de rastro

Podem voar mundos, mover astros
Que tu és como um deus, princípio e fim."

Florbela Espanca